Parte 19 - Trem para Sarnath

Geralmente compra-se a passagem de trem com certa antecedência. Como fui de última hora para Sarnath, não deu pra comprar classe Sleeper e tive que ir de 2a classe (paguei R$2,70 por 150km). Assim, viajei em um vagão super (hiper) lotado, nem um pouco limpo, com uma mochila de 20kg no pé (porque o chão estava molhado) por 3h e meia. No meio do sufoco, me aparece dois travestis cantando, brincando com os passageiros e pedindo dinheiro no vagão (''elas'' aparentemente não tinham problema em encoxar todo mundo pra abrir passagem). Depois, aparece um rapaz tocando uma flauta, segurando um cesto e, claro, pedindo dinheiro. Dentro do cesto, uma simpática cobra naja mostrando a linguinha pra galera. Assim é viajar de 2a classe na Índia. Não recomendo.

Parte 18 - Como me tornei um monge em Bodhgaya e Sarnath

Você vê um monte de skinheads chineses vestindo umas batas vermelhas e amarelas e logo pensa: estou no Tibet, correto? Quase. Aqui é Bodhgaya, a cidade onde o príncipe Siddartha obteve a iluminação e se tornou o Buddha debaixo de uma arvore há 2600 anos. Ou seja, aqui é a Jerusalém dos tibetanos. E não só deles. Tem templos de todos os países budistas da Ásia: Tailândia, Japão, Butão (sem trocadilhos), Nepal, etc...

O templo principal:



Dentro do templo:

E a sagradíssima Bodhi Tree, debaixo da qual Buddha se tornou Buddha:

Os aprendizes tibetanos:

E os peregrinos butanêses:


Bodhgaya é um lugarejo que fica num fim de mundo no estado mais miserável da Índia. Então, o que fui fazer lá? A minha amiga Zana que viajava comigo conheceu uma monja no aeroporto que a convidou a ir a Bodhgaya. Aproveitei a chance e fui me embora também. Chegando lá entramos em contato com a tal monja, que é romena, mas que é budista tailandesa. A partir de então fiz um crash course intensivo de 2 dias em budismo (calma vó, não me converti). Acordava todo dia às 4 da manhã para ver as orações, acampei no templo onde fica a tal arvore da iluminação e fui a caverna onde Buda viveu por 6 anos.

A entrada da caverna (foto posada):

A pegada de Buddha:


E a miséria, infelizmente, não falta:

De Bodhgaya, fui para outra cidade sagrada, Sarnath para (tentar) aprender a meditar e ouvir um sermão do Karmapa Lama. Quem??? Funciona assim: o budismo tibetano tem 4 vertentes, cada uma com um líder, sendo que o mais famoso é o Dalai Lama. O Karmapa Lama é outro desses líderes. Assim, ouvi um sermão de um dos caras mais tops do budismo. Bem interessante, mas a tradução simultânea tibetano-inglês era bem tosca e eu não entendi muita coisa...

Outro templo sagrado, agora em Sarnath, aonde Buddha deu seu primeiro sermão após a iluminação:


ps: a Zana, por sinal, se converteu.

Parte 17 - Calcutá

É grande, suja, barulhenta e super povoada. Não, não estou falando de São Paulo. É Calcutá e eu gosto! Depois de 30 tediosas horas no trem, Kolkata (seu novo nome, bem mais sonoro) foi uma ótima surpresa na viagem. A cidade, mais conhecida por ter sido incorporada no nome da Madre Teresa, tem um charme tipicamente metropolitano, com largas avenidas e lindos prédios da época em que era a capital da Índia colonial. Claro, também tem miséria abundante, muitos pedintes na rua e vendedores que te arrastam (literalmente) pra dentro das lojas, mas isso não tira o mérito de Kolkata. Poder andar pelas ruas desertas de uma cidade de 15 milhões de pessoas às 8 da manhã foi uma sensação estranha e ótima. Pena que fiquei só 14 horas até pegar o trem pra Bodhgaya.

Além de se proteger do frio (chegou a 4ºC de manhãzinha), é importante usar alguma proteção no rosto por conta da poeira que fica no ar e pode transmitir diarréia (é sério!)
Um típico prédio colonial inglês.


O nada higiênico mercadão de Kolkata

Parte 16 - Chennai

Depois do passeio Gokarna-Hampi-Goa, voltei para Kochi (a cidade em que morava) para terminar meu estágio. Feito isso, me mandei rumo ao norte da Índia. No caminho, eu e Zana paramos algumas horas entre os trens em Chennai (ou Madras). Quisera eu que não. Cidade grande, feia, sem muita coisa pra fazer. Dessa forma, achei um shopping e passei boa parte do tempo por lá (calma mãe, não estourei o limite do cartão).

Andando pelas ruas de Chennai, me deparo com uma Igreja Universal. Tive que tirar uma foto:
Are you feeling drained by your problems?

Parte 15 - Hampi

De longe, o melhor lugar em que estive na Índia. Para chegar lá, foram necessárias 12 desconfortáveis horas de viagem em ônibus, mas valeu, e muito, a pena. Hampi é uma cidade em ruínas do antigo império Vijayanagar, que acabou há uns 500 anos. anos. Além de abrigar templos lindos e imponentes, a cidade também é referencia pra escaladores devido às montanhas da região. Fiquei numa pousada na beira dessas montanhas, pagando R$ 3 a noite para dormir na laje, encarando um céu repleto de estrelas. De quebra, ainda vi um meteoro caindo como uma bola de fogo. Sensacional.

O leito do rio que corta Hampi é multiuso e se torna lavanderia comunitária:

O majestoso templo central...


... e o seu pequeno habitante:

A elefante Lakshmi é outra habitante do templo:

E por 5 rúpias, te dá uma benção babenta:

Um culto hindu dentro do templo principal:

Hampi é uma cidade cercada de pedras que parecem que foram roladas do céu


As cores na rua:

Os arrozais:

E a laje:

Parte 14 - Gokarna

Esse é o lugar para onde todos os hippies migraram depois que Goa ficou muito turístico. A praia é bem bonita, em formato de Om, com vacas andando na areia e tudo mais. Os tipos gringos que você cruza aqui são bem, ahnnn, interessantes. São, em geral, bichos grilos praticantes de yoga, a maioria com dreads decagenários, gente que fica por lá por vários meses.


Parte 13 - Goa

Ao contrario do que muitos pensam (e eu pensava) Goa não é uma cidade, mas um estado indiano. É a meca dos turistas em busca de praia na Índia o que significa muita gente, especialmente russos e israelenses. As praias são bem comerciais, lotadas de pousadas e restaurantes por toda a sua extensão. A agitação fica na parte norte, com baladas e a famosa cena trance da região. No centro do estado, ficam as igrejas portuguesas e atividades culturais. No sul, praias mais calmas e menos gente. Optei pela ultima e fiquei em Patnem, ao lado de Palolem, bem bonito e arrumadinho.
A pousada:

E a vista:


Eu, entretido:


A über turística Palolem:


Com direito a vaquinhas pegando um bronze e tudo:

Parte 12 - Trens

Viajar de trem na Índia é um barato. E também pode ser bem barato. Os trens são divididos em diversas categorias (da mais cara para a mais barata): 1ac, 2ac, 3ac, Sleeper e 2a classe. Como sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, opto sempre pelo Sleeper, que é bem barato e relativamente confortável, em que cada seção do vagão possui 6 camas, 3 de cada lado, divididas em um tipo de beliche. Todo o trem, por fora e por dentro, é azul, variando entre azul marinho e azul calcinha. O banheiro, por óbvias razões, é nojento e no indian style, só um buraco no chão e boa. De vez em quando da pra ver alguma baratinha correndo pelo vagão, mas elas são bem rápidas e difíceis de matar.


Essa é a minha companheira sérvia de mochilão, a Zana:


Tem que se ajeitar do jeito que dá:

E se você ficar no terceiro andar, até dá pra fazer um muquifozinho.

Parte 11 - Bate-papo rápido com um indiano (geralmente crianças e vendedores)

Indiano - Hello.

Eu - Hello

I - What's your name ?

E - Gui. What's yours?

I - ?????? (algum nome impossível de ser lembrado 5 minutos depois).

E - Nice to meet you.

I - Which country?

E - Brazil.

I - Don't know. (ou então: Brussels/Belgium?)

E - No, Brasssile. You know, football...

I - Ohhhhh, Brasssile. Yeah!! R(rrrrr)onaldo, R(rrrrr)onaldinho.

E geralmente depois dessa breve interlocução eles tentam te vender algo ou te pedem esmola.

Parte 10 - Cricket

Indiano é apaixonado por Cricket. Fato. É incrível. Nos parquinhos, emAdicionar vídeo vez de 2 traves e uma molecada batendo uma pelada, vê-se 2 stemps (tipo um tripé de madeira) e uma molecada com uns tacos gordos. É um esporte com regras complexas, mas, na verdade, não passa de um Bets (ou Taco dependendo da onde você venha) com mais frescura. Dependendo do tipo do jogo, uma partida pode durar até 5 (!) tediosos dias. Na TV aberta, tem 4 canais de esportes, sendo que 1 é dedicado exclusivamente ao Cricket e os outros 3 dedicam 50% do tempo ao esporte. Aprendi as regras e assisti a uma ou duas partidas, mas depois de 20 minutos você percebe que é chato pra cacete e muda de canal. O Pelé local é um batesman (rebatedor) chamado Sachin Tendulkar. A cara dele e de outros atletas da seleção nacional estampam vários produtos e o brother é um herói nacional.

Aqui, uma foto do popstar:

Parte 9 - Sujeira

Kochi é muito suja. As ruas são cheias de lixo e terra acumulados pelos cantos. As pessoas jogam o lixo direto na rua simplesmente porque não tem onde mais jogá-lo. Achar uma lata de lixo é tarefa complicada e restrita a shoppings centers e, às vezes, a supermercados. Todas as tardes pode-se ver varias pequenas queimadas na frete das casas. O habito local é tacar fogo no lixo acumulado durante o dia, misturando produtos orgânicos com plásticos, borrachas e otras cositas mas que não deveriam ser incineradas, produzindo uma fumaça desagradável e não muito saudável pela cidade. Os rios urbanos são bem sujismundos, de uma cor verde-quase-preto. Esgoto é semi a céu aberto, pois em algumas partes da cidade o esgoto passa em uma espécie de fosso na beira das ruas e esse fosso nem sempre é sempre bem tampado. Pois é, o Capitão Planeta está precisando dar uma passada por aqui...


Parte 8 - Filmes

Que Bollywood que nada! Aqui o que reina são os filmes locais. Cada região do sul da Índia tem seu próprio pólo cinematográfico com filmes na sua própria língua, seus próprios astros, etc. No começo, achava que todos os atores nos cartazes de filmes pareciam o mesmo cara. Estava começando a achar que indiano era que nem japonês, tudo igual. Ai descobri que realmente era a mesma pessoa em todos os filmes! Ou melhor, duas pessoas. Mammootti e Mohanlal são OS caras por aqui. Eles são muito parecidos entre si (gordinhos e bigodudos) e são responsáveis por 20% dos filmes produzidos que geram 70% da receita total dos filmes de Kerala. A maioria dos cartazes de filmes tem a cara redonda de um dos dois.

Este é um cartaz do último sucesso do Mammootti:

E aqui o simpático e redondo Mohanlal:

Para assistir um filme indiano, tem que ter uma paciência de elefante, até porquê eles costumam durar umas 3 horas cada. Não há legendas em inglês então você fica boiando mesmo. A película usada nos filmes é bem tosca de modo que um filme feito há 5 anos parece ser dos anos 70. Não há beijo e o romance se resume ao mocinho ficar cortejando a mocinha com danças e músicas. Estas são, por sinal, terríveis já que a mocinha canta com uma voz fina e altamente irritante e o fundo são só uns tambores sem graça. Os mocinhos são galãs bregas tipo He-Mans, salvam as mocinhas dando porrada em todo mundo com coreografias de luta pra lá de fakes. E há musicais, muitos musicais. Mesmo os clipes da MTV são todos iguais com umas 60 pessoas dançando em sincronia. Chato.

ps: Um dia zapeando pelos canais indianos, me deparo com Tropa de Elite passando em um canal de filmes e dublado em inglês. Sensacional.

Parte 7 - O Idioma

A Índia tem uns 28 idiomas oficiais fora o inglês, praticamente um pra cada estado. O idioma oficial de Kerala é o Malayalam. Ele deriva do sânscrito e é impossível entender qualquer palavra. Pra começar, parece que eles enrolam um monte de ''erres'' na língua pra formar uma palavra. Ler, então, nem pensar. É uma alfabeto próprio, com uns 50 caracteres, diferente de tudo o que eu já tinha visto, com um monte de "emes" redondinhos escritos de formas diferentes. Me viro com o inglês mesmo. O sotaque deles é bem carregado, mas a maioria dos indianos fala o básico e dá pra se comunicar de forma razoável, menos quando tento negociar um preço decente com um motorista de autorickshaw.

Até que as letras são bonitinhas, né?!?!

Parte 6 - Segregação

Esse negocio de casta, pelo menos no sul da Índia, é pura balela. Elas existem, mas não se vê nenhuma segregação do tipo, onde uma entra, a outra não pode entrar. O que se vê, e muito, é segregação por gênero. A sociedade sul indiana é extremamente machista. Mulheres não podem andar desacompanhadas a noite, nem caminhar na rua muito perto de homens que não sejam da família. Nos ônibus, a parte da frente é reservada para elas e a de trás para os homens. Se houver um assento vago do lado de uma mulher, nenhum homem pode sentar salvo se este for seu esposo. Muitas associações de moradores proíbem que homens e mulheres dividam a mesma casa ser estarem casados. Por conta disso, tive que me mudar duas vezes até conseguir um apartamento que morassem só homens.

Parte 5 - Os Indianos

Os indianos têm um estilo muito peculiar. Uns 95% dos homens com mais de 35 anos usam bigode e todos vestem camisa social à lá Agostinho Carrara. Assim, parece que todos estão vendendo jogo do bicho. Eles ou usam calça de sarja ou mundu (não sei como se escreve) que é um tipo de saia masculina. Eu já comprei a minha, mas ainda não descobri como amarrar direito. É meio incômoda e fica frouxa na cintura, mas por outro lado, quando bate um vento sudoeste dá uma boa refrescada. No pé, eles estão sempre de sapato ou sandália tipo Rider. E tem o ouro. Os indianos são fascinados pelo metal que pode ser comprado a um preço bem menor do que no ocidente. É muito comum ver gente de baixo poder aquisitivo com relógios, braceletes, brincos de ouro. Mas não ajuda a diminuir o aspecto brega...


Abaixo vocês podem conferir o look tradicional com direito a saia e tudo:


As mulheres usam, basicamente, dois tipos de roupa: o saree (que todo mundo conhece por causa da novela) e o salwar kameez que é bem mais simples, composto por uma calça, um vestido e uma escharpe. Roupa ocidental é muito raro entre as mulheres, especialmente as do sul que são mais tradicionalistas. Abaixo, duas professores de ensino médio usando sarees: